
Há momentos que entram para a história da humanidade. Em 13 de agosto de 1961, começou a ser erguido o Muro que dividiu fisicamente Berlim, na Alemanha, e se tornou o maior símbolo da Guerra Fria. Passados 28 anos, a construção foi derrubada. No dia 09 de novembro de 1989, caiu o Muro que separava uma nação. O fim de um conflito de nervos estava selado. Mais vinte anos se passaram e a história continuou a ser escrita. Na memória de quem viveu aquele período, ficaram diferentes lembranças. A Sete Fios convidou vinte pessoas, entre jornalistas, acadêmicos, escritores, artistas e anônimos para responder a estas perguntas sobre o aniversário de vinte anos da queda do Muro de Berlim: Quantos anos tinha, onde estava e o que estava fazendo quando o Muro caiu?; Vinte anos após a queda, vivemos em um mundo melhor? Os relatos foram reproduzidos na íntegra. Esta reportagem começa contando as memórias do alemão Göz Kaufmann que viveu de perto as emoções de tal acontecimento.
Reportagem: Eliseu Barreira Junior, Mariane Domingos e Tainara Machado
Ilustração: Guto Lacaz
Era inverno. O cheiro do carvão queimado vindo das fábricas sem filtros se espalhava por toda a cidade. O rio repleto de espuma revelava a presença de uma grande indústria de papel. As casas lhe pareciam mais pobres. Os supermercados tinham filas e ofertas limitadas. As motos antigas eram o que mais fascinava o garoto e seu irmão.
O ano era 1977. A cidade era Dessau (Alemanha Oriental). O garoto era Göz Kaufmann – nascido em 1965, em Stuttgart, Alemanha Ocidental – e essas são as lembranças da única vez em que ele esteve do outro lado do Muro, em uma cidade que não fosse Berlim.
Na sua família, não se falava muito sobre a divisão da Alemanha. O pai não concordava, mas também não sofria com a separação. “Muitos alemães aceitaram a perda de algumas províncias e a divisão do país como justo castigo pelas atrocidades que os nazis/os alemães tinham cometido durante a Segunda Guerra Mundial. Até hoje, o sentimento da culpa pelos crimes dos nazis é uma coisa sem a qual, na minha opinião, não se pode entender a Alemanha e os alemães”, explica.
Mesmo no ambiente universitário, não se previa a queda do Muro. Göz estudou em Heidelberg, bastante longe da linha de divisão, mas, segundo ele, em nenhuma parte do país, ocidental ou oriental, havia muitas pessoas que esperassem pela reunificação. Só depois, ele se deu conta de que, no exterior, isso já era aguardado por muita gente. “Nós, na Alemanha, incluindo quase todos os políticos, estávamos cegos, porque tínhamos nos conformado com a divisão ou não conhecíamos outra realidade (como era o meu caso). Os nossos políticos não contaram com a possibilidade real da reunificação mesmo que ela tenha sido a tarefa fundamental expressa no prefácio do nosso Grundgesetz (constituição)”, lembra.
Foi nesse clima de conformismo que o Muro foi derrubado. A primeira notícia saiu por volta das 22 horas e as pessoas começaram a cruzar a linha de divisão às 23 horas. Göz estava fazendo um trabalho para a universidade e não tinha nem rádio, nem televisão. Ele só ficou sabendo da queda no dia seguinte, aproximadamente ao meio-dia, quando foi à faculdade. “Captei imediatamente que alguma coisa extraordinária tinha acontecido, estava no ar, todo mundo parecia muito estranho. Juntei-me a um grupo de estudantes que não conhecia e perguntei: ‘Aconteceu alguma coisa?’ Eles me olharam como se eu fosse um louco e disseram: ‘O muro caiu’. Eu só disse: ‘Não!’”.
Mesmo sendo contra a reunificação (posição que manteve até 1992), a queda do Muro o emocionou, assim como a todos os alemães. “Eu tinha lágrimas nos olhos (e as tenho agora e cada vez que vejo documentários na televisão). Era a coisa mais estranha. Foi a primeira vez que a história aconteceu de verdade e todo mundo realizou isso”, conta.
Naquele ano, o Réveillon de Göz foi na Alemanha Oriental. Ele passou mais de uma semana na região e visitou várias cidades que o interessavam: Leipzig, Dresden e Weimar. “Fiz tudo de autostop (carona) e assim tive muito contato com os Trabi (os famosos carros) e com as pessoas. Era muito interessante: em cada aldeia, havia placas que diziam ‘Wir begrüßen unsere Brüder und Schwestern aus dem Western’ (Cumprimentamos os nossos irmãos e irmãs do Ocidente). Mas, quando entrávamos em discussões sobre política, todo mundo abaixava a voz. Não se discutia política em voz alta, ainda não. Em Dresden, era impressionate como o centro da cidade era feio. Era feio (e parcialmente ainda é) por causa do bombardeio de fevereiro de 1945. Em Leipzig, entrei em um prédio no centro da cidade que tinha sido abandonado, destruído pelos ataques aéreos. Era até perigoso. Mas Weimar era uma pérola já em 1989”, lembra.
Depois da queda do Muro, por muito tempo Göz ainda mandou cartas aos amigos com o endereço West Germany. Demorou três anos para que ele aceitasse a reunificação, pois não via razão em se anexar a uma região que mal conhecia. “Só em 1997 não tive mais a impressão de ir para um país estrangeiro quando cruzava a fronteira. Não tinha nada contra as pessoas de lá, mas não era o meu país. Hoje sim, aquele lugar faz parte da minha identidade.”
Na opinião de Göz, Helmut Kohl, chanceler da Alemanha no período, errou ao garantir à população que a reunificação não traria gastos para a Alemanha Ocidental. “Na época, as emoções eram muito fortes. Se ele tivesse dito que isso aconteceria, talvez tivéssemos aceitado melhor a ideia, porém seis meses depois aumentaram os impostos na parte Ocidental e o nosso seguro social foi usado para pagar as aposentadorias da Alemanha Oriental.”
Quanto às sequelas que a existência do Muro deixou no povo alemão, Göz afirma que elas não são tão comuns entre os jovens. “Se fala muito sobre o muro que ainda existe na nossa cabeça. É verdade para muitas pessoas da minha idade e mais velhas. Acho que os jovens não têm mais esse problema, pelo menos no meio universitário.”
Apesar de definir a queda do Muro como um período “fantástico” da história alemã, Göz acredita que os alemães “poderiam ter se saído melhor”. “Em certo sentido simplesmente ‘anexamos’ a Alemanha Oriental e eles simplesmente se deixaram ‘anexar’. Poderiamos ter sido melhores, ter dado um exemplo para o mundo, ter mostrado que há coisas mais importantes do que o consumo… Não fizemos!”
É dessa forma que aquele garoto, que, em seu primeiro contato com a Alemanha Oriental além de Berlim, se interessou mais por motos do que por política, enxerga os fatos históricos que presenciou. Trinta e dois anos se passaram desde essa visita. Vinte anos, desde a queda do muro. Göz, hoje professor de Linguística Alemã na Universität Freiburg (sul da Alemanha), diz, com convicção, que não vivemos em um mundo melhor. “Em 1989 (e antes na Polônia), o capitalismo perdeu seu principal inimigo e começou mostrar o verdadeiro rosto, feio e injusto. E ainda mais importante que isso é o fato de que não vamos conseguir solucionar o principal problema de todos: a mudança climática. Estamos no dia 16 de novembro e está 16 graus em Freiburg. Isso é um absurdo. Perdemos o muro e o inverno”, desabafa.
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3 Comentários
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Atenção: motos são do século XXI e não do XVI como foi escrito.
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Muito interessante a diversidade dos depoimentos. Comungo com Nancy e Rodrigo acerca da pergunta: vivemos em um mundo melhor?
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bom comeco
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[...] This post was mentioned on Twitter by Thaty Marcondes and Thaty Marcondes, Revista Sete Fios. Revista Sete Fios said: Entrevistado da @setefios, Alex Flemming (http://bit.ly/aCZtTD) cria arte em bilhetes de loteria em São Paulo: http://bit.ly/918HRH [...]