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18 Fev

Quarenta dias na vida de um católico praticante

Quando o Carnaval chega ao fim, começa um tempo de espera, uma maratona de fé e a Campanha da Fraternidade

Por | Mariane Domingos e Tainara Machado
Imagem | A tentação de Cristo, de Sandro Botticelli

Depois de tanta folia, todos querem mais é descansar. Quer dizer, nem todos. Para Avelino Hernandez, a quarta-feira de cinzas é só o começo de uma maratona bem diferente da do carnaval: a quaresma. Durante 40 dias, ele intensifica o trabalho voluntário, frequenta reuniões de orações diárias (exceto sábados e domingos) das 5h30 às 6h30 da manhã e, todas as segundas, quartas e sextas, não come carne e se abstém de relações sexuais.

Segundo a diretora de ética religiosa do Colégio Santo Américo, Regina Tocci, a quaresma simboliza os dias em que Jesus se retirou para o deserto, com o intuito de jejuar e se preparar para a sua morte. Ela explica que é um tempo de preparação para a ressurreição de Cristo e para a Páscoa, a festa mais importante do ano para os católicos, e por isso, nesse período, é comum ver nas igrejas maior presença da cor roxa, que significa espera.

“É um sacrífico oferecido a Deus”, o que não necessariamente significa única e exclusivamente jejum de carne: para Regina, a oferenda pode ser deixar de tomar Coca-Cola, quando o refrigante é item indispensável, ou ir a um orfanato durante os finais de semana. Em resumo, é “algo de coração”, já que em tempos de viciados em dietas e vegetarianos, o abandono da carne não é mais privilégio da época da quaresma.

O respeito à essa tradição católica, segundo Avelino, veio um pouco da religião e um pouco da educação que recebeu em casa. “Quando criança, eu morava em sítio e, por ser longe, minha família ia à Igreja apenas em casamentos e em duas ocasiões: quarta-feira de cinzas e sexta feira-santa. Minha mãe sempre se preocupou em nos ensinar a importância da quaresma”, lembra Avelino.

Ele diz que já rejeitou muitas festas e churrascos durante esse período de abstinência e foi muito incompreendido por isso. “Quantas vezes já me chamaram de tonto, porque recusei um convite desse tipo. As pessoas tentam me convencer, dizendo que ‘ninguém mais segue isso’”, afirma.

Avelino acredita que, embora, atualmente, a Igreja esteja mais perto dos fiéis, incentivando a prática dos costumes católicos, antigamente, se respeitava mais a quaresma. “Antes, as missas eram rezadas em latim. Não havia proximidade. Agora isso mudou: a Igreja está até nas redes sociais para atrair os jovens. No entanto, parece que cada vez há menos pessoas que se importam com as tradições”, diz.

Regina Tocci, que também é professora de religião, não acredita que os católicos praticantes não cumpram à risca a quaresma. “As pessoas que frequentam a igreja, que vivem na vida cristã verdadeiramente, que vão sempre à missa, levam o período muito a sério”. Para ela, a explicação para a apatia percebida por Avelino é outra.

Regina comenta, sem esconder certa insatisfação, que só entre os católicos existe a possibilidade de se autodenominar não-praticante. “As outras religiões não têm isso. Você já viu um judeu dizer que não pratica a sua crença?”, questiona.

Campanha da fraternidade

“Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro e muito menos agradar a dois senhores”, diz o versículo 24, capítulo 6, do livro de Mateus, que serviu de inspiração para o lema da Campanha da Fraternidade de 2010. No Brasil, a campanha, que pela terceira vez será ecumênica, é organizada pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), tem até um hino e acontece justamente durante os 40 dias que antecedem a Páscoa. O objetivo é fazer com que os cristãos reflitam sobre o momento da economia brasileira, em que o consumo tem cada vez mais espaço.

Mas além de alertar para os males do consumismo, a meta principal, explica Regina Tocci, é despertar outro dos valores que devem ter mais espaço na vida dos que praticam a fé católica: a caridade. A ideia, desta vez, é “promover uma economia à serviço da vida”. Mas, mais do que isso, o objetivo é lembrar a todos de fazer algo mais “bacana” pelos outros. Pode ser no campo material, intensificando o voluntariado, a exemplo do que faz Avelino. Ou então no campo espiritual: “vamos fazer jejum de brigar com o outro, de xingar o outro”, prega.

Um Comentário

  1. 1
    Borbas
    23/02/2010 at 10:54
    Permalink

    Caraca, como vocês encontram esses personagens? Todos eles são demais!!

    Eu me orgulho demais da SeteFios!! Parabéns a todos!
    xD

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