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06 Fev

A mulher do samba

A comissão de frente da Sete Fios entra na avenida com uma entrevista exclusiva com a cantora e compositora Leci Brandão

Por | Carla Peralva e Eliseu Barreira Junior
Fotos | Divulgação

leci_brandao_topo-300x198Faltando poucos dias para o carnaval, Leci Brandão está com a agenda lotada. Shows, compromissos nas quadras das escolas de samba e preparativos para comentar os desfiles pela Rede Globo tornaram quase impossível entrevistar uma das principais cantoras e compositoras da música popular brasileira. A Sete Fios conseguiu “roubar” alguns minutos de Leci e conversou por e-mail com a carioca de 65 anos que há mais de quarenta faz da sua arte “uma maneira de contribuir para a melhoria de vida das pessoas”. Primeira mulher a entrar para a ala dos compositores da Mangueira, Leci sempre teve uma forte atuação política ligada aos direitos das minorias. Por causa das letras de suas músicas, brigou com a gravadora Polygram no início da década de 1980 e passou alguns anos sem gravar. No bate-papo, ela fala sobre a polêmica, diz que deve sua vida à Deus, afirma que o presidente Lula foi traído por seus companheiros do PT e conta um pouco da relação de amor que tem com o samba. Leia a seguir a íntegra da conversa virtual e acompanhe no mapa (clique aqui para acessá-lo) as localizações dos lugares citados por Leci (as palavras sublinhadas na entrevista possuem uma referência no mapa). 

Carnaval

>> Como nasceu sua ligação com o mundo do samba e do carnaval?
Acredito que na minha casa e na família materna. Minha avó foi pastora da Mangueira, minha mãe idem e minha madrinha de batismo morava no Morro da Mangueira. Frequentei o morro desde pequena e ia aos ensaios na Fábrica de Cerâmica. Ainda não havia o “Palácio do Samba” que foi construído nos anos 70.

>> Qual sua escola de samba do coração?
EVIDENTEMENTE, Estação Primeira de Mangueira.

>> A senhora foi a primeira mulher a entrar na ala de compositores da Mangueira. Atualmente, há mais mulheres no mundo do samba do que antigamente? Há menos machismo? Há alguma compositora de sambas de enredo atuante hoje que a senhora destacaria?
Existem diversas mulheres no mundo do samba, não só cantando, mas saindo, principalmente, nas baterias, nas harmonias e até presidindo escolas. Destaque de compositora de samba-enredo, posso citar Mart’nália, que ainda não ganhou na Vila Isabel.

>> A senhora comenta o carnaval pela Rede Globo. Qual o maior desafio do trabalho de comentarista?
Comentei o carnaval na Rede Globo de 1984 a 1993 no Rio de Janeiro. Em 2000, retornei ao Rio e fiquei até 2001. A partir de 2002, fui convidada para comentar o desfile de São Paulo, onde graças a DEUS permaneço. Esse trabalho é extremamente prazeroso, porque mostro ao telespectador a importância da espinha dorsal da Escola de Samba, que é o SAMBISTA, O POVO DO BARRACÃO, O RITMISTA, O DIRETOR DE BATERIA, O CASAL DE MESTRE-SALA E PORTA BANDEIRA, A COMISSÃO DE FRENTE, OS COMPOSITORES, OS DIRETORES DE HARMONIA, A VELHA GUARDA E AS BAIANAS. Procuro focar este universo que normalmente é ignorado pela MÍDIA.

>> Apesar de comentar o carnaval, a senhora não costuma fazer muitas apresentações na televisão. Por quê?
Isso depende muito de GRAVADORA. Quando ela tem interesse, você aparece. Do contrário, nada acontece. Entretanto, minha agenda de shows é maravilhosa. Meu empresário Osmar Costa vende o nosso espetáculo para o Brasil inteiro o ano todo, graças a DEUS.

>> Qual carnaval é melhor: o do Rio de Janeiro ou o de São Paulo?
Ambos são importantes. O Rio é mais tradicional e amplamente estruturado financeiramente. Entretando, o carnaval de São Paulo cresceu indiscutivelmente e quando a participação financeira aumentar as condições serão iguais.

>> Hoje em dia, as escolas de samba com todo o dinheiro investido na produção dos desfiles se tornaram, digamos, bastante profissionais. O carnaval perdeu sua magia com tanto profissionalismo e investimento?
Sou saudosista, portanto, suspeita. Acho que o luxo é bonito mas você não pode excluir a emoção do samba. É muito importante dar atenção à VELHA GUARDA, à ala das BAIANAS, ao casal de MESTRE SALA E PORTA BANDEIRA e principalmente à COMUNIDADE. Tem muita gente se oportunizando da Escola de Samba.

>> Desde que a senhora começou a participar do carnaval, qual a principal transformação que trouxe melhoras para este mundo do samba e qual foi prejudicial?
O direito de arena dos compositores de sambas de enredo foi positivo. O tempo de desfile é pequeno. As ESCOLAS passam CORRENDO e não fazem mais EVOLUÇÃO. Isso não é legal.

>> Na sua opinião, qual escola de samba e qual samba enredo prometem fazer sucesso neste carnaval?
Na qualidade de comentarista da Rede Globo, torço para que todas as escolas se saiam bem. Não tenho favoritismo.

Mundo do samba

>> Em entrevista, a senhora fez a seguinte declaração: “Minha saída da gravadora Polygram se deu porque não aceitaram meu repertório em geral, disseram que tinha muita música política. Achavam que eu tinha um trabalho muito pesado em termos de letra, era muito contestadora, era muito preconceito sendo questionado. Falaram que eu tinha que fazer outro som, que era para eu ir para casa e pensar em fazer um outro tipo de música”. A senhora acredita que ainda há preconceito com relação à sua música ou isso já foi superado?
A partir de 1985, graças a DEUS, as coisas mudaram. Continuei cantando meus sambas, mas com arranjos mais simples, mais próximos do meu povo. As letras permanecem politizadas: conscientização política, guerra do preconceito, defesa da educação, respeito à postura nacional, direitos humanos, cidadania e outros.

>> Seu trabalho é mais reconhecido pelos paulistas? Se sim, por quê?
Nos anos 80 (1985 a 1991), São Paulo fez meu sucesso. Foram 4 discos de ouro (1985, 1987, 1988 e 1989). Depois que a gravadora Copacabana enfraqueceu no mercado, a partir de 1991, minha carreira foi afetada. No final de 1997, recuperei paulatinamente meu espaço e, em 1998, tudo voltou à normalidade graças ao meu encontro com Osmar Costa, amigo, empresário e, hoje, o pai branco da minha vida. Toda essa história aconteceu no Estado de São Paulo. Claro que sim! Sou muito grata pelo reconhecimento, pelo caminho e pela devolução da autoestima.

>> O que é mais prazeroso: cantar ou compor?
Cantar faz bem para mim e, principamente, para os outros. Compor faz bem para vida dos outros e, principalmente, para mim.

>> Qual seu maior ídolo no mundo da música?
Gosto de muitos artistas!!!

>> A senhora já possui uma carreira consolidada. Quais seus principais projetos daqui pra frente?
Gravar meu 2º DVD.

>> Várias das músicas compostas pela senhora já foram regravadas por outros artistas. Há alguma música que compôs e que tenha gostado de ouvir na voz de outra pessoa? Alguma versão em específico?
“Quero sim”, por Alcione, “Saudações”, por Paula Lima, e “Zé do Caroço”, por Art Popular, Revelação, Seu Jorge e, especialmente, Mariana Aydar.

>> Quem a senhora indicaria como revelação hoje no mundo do samba? Há boas novidades vindo por aí?
Mart’nália, porque sabe tudo e tem o DNA Martinho da Vila. Diogo Nogueira canta muito bem, é compositor e já disse a que veio. Fabiana Cozza é simplesmente fantástica e Ana Costa, além de compor, canta com muita propriedade.

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